miniaturas 7

miniaturas 07

Pintando o Sete (I)

 

O nosso leitor (no singular mesmo, talvez só exista um) pode ficar tranqüilo: não pretendemos elaborar nenhuma análise numerológica do xadrez. Para nós, tanto faz que as palavras, SMYSLOV, SPASSKY, KRAMNIK e FISCHER contenham, cada uma, sete (7) letras. Estamos longe de bancarmos o Paulo Coelho para lembrar que o reinado de Capablanca durou 7 anos (e terminou no ano de 1927), que Mequinho venceu Korchnnoi depois de um intervalo de 7 anos (1967-1974), que Kasparov e Karpov se encontraram pela primeira vez sete anos depois que Karpov ocupou o trono de Fischer, que Alekhine retomou o título em 1937. Sem falar das torres na sétima, do peão na sétima, e o mais estarrecedor: que Kasparov conquistou o título mundial numa semana de sete dias! (Espantado, amigo leitor? Tanto quanto Macbeth, quando descobriu que não tinha nascido de mulher...)

Duzentos e cinqüenta e dois anos depois da publicação do primeiro volume da Enciclopédia de Diderot e D’Alembert, reafirmamos o compromisso com as luzes da Razão no combate às trevas da ignorância, do fanatismo, da intolerância e da superstição!

Por que então o número sete? Por um motivo simples: resolvemos dar um passeio pelas partidas que terminaram em apenas sete. Os erros são bastante instrutivos e todas têm final bonitinho.

Nosso primeiro exemplo é a repetição de uma velha e sempre instrutiva cilada da variante dragão da defesa siciliana que volta e meia apanha algum incauto:

 

Springer,P - Felder,M

Campeonato da Suíça, Luzern, 1994

1.e4 c5 2.Cf3 d6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cf6 5.Cc3 g6 [começo da variante dragão. Dizem que a posição das pretas lembra vagamente a forma de um dragão chinês.] 6.Be3 Cg4?? [Talvez pensando: "Agora, Herr Springer, dê o seu salto!". O correto é um lance simples como 6...Bg7. As pretas não precisavam conhecer a cilada para respeitar o velho princípio de não mover duas vezes a mesma peça na abertura.] 7.Bb5+ e as pretas abandonaram porque depois de 7...Bd7 as brancas jogam 8.Dxg4! ganhando a peça. 1–0

Alguns amadores preferem aberturas e defesas menos adotadas pelos bons jogadores. Entretanto, deveriam estar cientes dos motivos pelos quais os mestres evitam determinadas linhas:

 

Grass,R - Agustoni,M

Campeonato da Suíça, 1994

1.e4 e5 2.Cf3 d6 [A defesa Philidor não goza de boa reputação entre os GMs porque as pretas ficam com posição restringida e sem muita compensação.] 3.d4 Cd7 4.Bc4 Be7 [Esse lance não é bom. As pretas deveriam ter jogado 4...c6 para seguir com 5.Cc3 Be7.] 5.0–0 [É melhor jogar logo 5.dxe5 Cxe5 6.Cxe5 dxe5 7.Dh5 g6 8.Dxe5 Cf6 9.Bh6 com vantagem inquestionável. De qualquer modo, esse lance, o roque, já foi a opção de um bom GM como o peruano J. Granda, precocemente afastado do xadrez.] 5...h6? [Perda de tempo injustificada. O correto teria sido 5...Cf6 6.Cc3 O-O.] 6.dxe5 dxe5? [A emenda pior do que o soneto. Depois de 6...Cxe5 7.Cxe5 dxe5 8.Dh5 g6 9.Dxe5 as brancas teriam peão a mais e posição superior, com grandes chances de vitória. Mas o que as pretas escolheram na partida leva à derrota imediata.] 7.Dd5 e as pretas abandonaram. Com efeito, depois de 7...Cdf6 8.Dxf7+ tem início a caça ao rei preto: 8...Rd7 9.Cxe5+ Rd6 10.Td1+ Rc5 11.Be3+ Rb4 (solitário, o rei monarca atravessa o campo inimigo sob ataque implacável dos adversários) 12.a3+ Ra4 (12...Ra5 13.b4+ Ra4 14.Cc3#) 13.b3+ Ra5 14.b4+ Bxb4 15.axb4+ Rxb4 16.c3# 1–0

Mais importante do que decorar os lances da abertura, é conhecer os temas principais, o porquê de cada seqüência. Só então é que deveremos memorizar os cachos de variantes... Um exemplo simples é encontrado na partida abaixo (os números entre parêntesis indicam o valor do Rating Fide):

 

Boeven,M (2140) - Kristiansen,E (2260)

Campeonato mundial de Seniors , Grieskirchen 1998

1.d4 Cf6 2.Cc3 g6 3.e4 d6 [Por transposição, as pretas entram na Defesa Pirc.] 4.f4 c5? [Esse avanço de peão só deve ser feito depois que o bispo foi para g7. Por exemplo: 4...Bg7 5.Cf3 c5 (também é bom 5...0–0 6.Bd3 Ca6) 6.Bd3 Cc6 lances típicos do chamado Ataque Austríaco.] 5.dxc5 Da5 [Aí está a diferença: esse lance só é forte quando está combinado com o Bg7, ameaçando ...Cxe4 com triplo ataque sobre c3.] 6.cxd6 Cxe4?? [Era preciso se conformar com 6...exd6 7.Dd3 (defende os pontos e4 e c3, prepara o roque grande, impede ...d5) 7...Cc6 8.Bd2 com enorme superioridade das brancas.] 7.Dd5 e as pretas abandonaram ao perceber que depois de 7...Dxd5 8.Cxd5 Ca6 (não há como evitar 10.Cc7+) 9.Bxa6 bxa6 10.Cc7+ Rd8 11.Cxa8 exd6 12.Be3 Bb7 13.Bxa7 Bxa8 e a vantagem da qualidade + peão garante a vitória branca. 1–0

Pode ser uma receita conservadora para a vida diária, mas é ainda válida para o jogo de xadrez: no começo da partida, a dama deve ser recatada, não ousando passear para longe de casa (veja a seção anterior de miniaturas). Na partida abaixo, a dama preta parte em direção do campo inimigo sem qualquer proteção, rodeada de súditos que em vez de protegê-la a impedem de retornar à casa abrigada:

 

Keskisarja,T (2290) - Pitkanen,S (2175)

Espoo We MatSK Espoo 1998

1.e4 d5 2.exd5 Dxd5 3.Cc3 Da5 [As pretas jogam a defesa escandinava. O lance 3...Dd8 também é válido, mas nesta partida as pretas preferiram manter a dama numa casa supostamente ativa.] 4.d4 Cf6 5.Bc4 Cc6 [A variante mais utilizada nos torneios de mestres atuais é: 5...c6 6.Bd2 Bf5 que admite duas possibilidades: A) 7.Cf3 e6 8.Ce4 (8.Cd5 Dd8 9.Cxf6+ gxf6) 8...Dd8 9.Cg3 Bg4 10.c3 Cbd7; e B) 7.De2 7...e6 8.0–0–0 Bb4 9.Cf3 Cd5 10.Cxd5 Bxd2+ 11.Cxd2 cxd5 12.Cb3 Dd8 13.Bb5+ Rf8] 6.Bd2 [Preparando uma cilada para a dama. Repare que o Cc6 impede o retorno da dama preta. De qualquer modo, o usual aqui é 6.Cge2 Bg4 7.f3 Bf5 8.Be3 ou então 6.d5 Ce5 7.Bb3] 6...a6?? [As pretas poderiam ter despreocupadamente tomado o peão, como nesta antiga partida de dois GMs inimigos do empate rápido: 6...Cxd4 7.Cb5 Db6 8.Be3 Da5+ 9.Bd2 Db6 10.Be3 Da5+ 11.Bd2 ½–½ Spielmann,R-Mieses,J/St Petersburg 1909, ou então 6...Db4 7.b3 e5 (seria horrível 7...Dd6? por causa de 8.Cb5 Dd7 9.Bf4 e as brancas estão ganhas, Kvicala,J-Mieses,Jm Praga 1908) 8.dxe5 Cxe5 9.Cd5 Dd6 10.Bb4 c5 11.Cxf6+ Dxf6 12.Bc3 De7= Przepiorka,D-Mieses,J, Duesseldorf 1908] 7.Cd5 e as pretas abandonaram porque a dama simplesmente não tem casa para onde fugir! 1–0

Nos contos de fada, as damas aprisionadas são resgatadas pelos cavaleiros. Mas na sangrenta realidade do tabuleiro, isso nem sempre acontece. A pobre mocinha é devorada pelo bárbaro inimigo:

 

Both,H - Engel,W

Rheinland-S Heimbach Weis, 1997

1.d4 g6 2.c4 Bg7 3.Cc3 d6 4.e4 c5 [As pretas jogam uma linha que não é exatamente a defesa índia do rei porque não colocaram o cavalo em f6.] 5.Be3 [Aqui normalmente se joga 5.d5 e6 6.Bd3 Ce7 ou então 5.Cge2 Cc6 6.d5 Cd4 7.Be3] 5...Db6 [5...Da5!?] 6.Ca4 [6.Cd5 Dc6=] 6...Db4+?? [A dama é insaciável na busca por xeque! A partida estaria igualada depois de 6...Da5+ 7.Bd2 Dc7 8.d5 Cf6=] 7.Bd2 e a dama preta não tem para onde fugir. Sendo assim, as pretas abandonaram. 1–0

A timidez pode fazer algum sucesso na arte do amor, porém Caissa (a deusa indiana do xadrez) não ama os tímidos. Aqui, o excesso de contenção das brancas leva à perda da dama e da partida. Infeliz no amor, infeliz no jogo:

 

De Mol,F - Van Hengel,H

Soest op 1995

1.e4 Cf6 2.d3 [Maneira pusilânime de enfrentar a defesa Alekhine. Os mestres preferem 2.e5] 2...d5 3.f3? [Esse lance é ruim por vários motivos elementares: retira uma boa casa para o cavalo branco (f3), não contribui para o desenvolvimento de nenhuma peça, e ainda deixa enfraquecida a diagonal e1–h4. Teria sido melhor jogar 3.Cd2] 3...e5 [As pretas se expandem com vigor no centro.] 4.Bg5 Bc5 5.Ce2 dxe4 6.fxe4?? [Era forçado 6.Bxf6 Dxf6 7.dxe4 (7.fxe4?? Be3 (ameaça o mate 8...Df2#) 8.Cf4 exf4) 7...Db6 8.Dc1 (defende o peão b2) 8...Bf2+ 9.Rd1 0–0 e a posição preta é muito melhor.] 6...Cxe4! 7.dxe4 [Se 7.Bxd8 Bf2#; Também perde, embora demore um pouquinho mais 7.d4 Dxg5 8.dxc5 Df5 9.Dd5 c6 10.Db3 Df2+ 11.Rd1 Re7! (para poder jogar logo 12...Td8. O rei preto não corre qualquer perigo porque as brancas não têm peças desenvolvidas nem o centro está totalmente aberto.) 12.Cd2 Td8 ganhando.] 7...Bf2+ e as brancas abandonaram porque depois de 8.Rxf2 Dxd1 as pretas ganhariam a dama. 0–1

Parece que ganha, mas não ganha. A dama que vai é a dama que fica. E o cavalo só salta para depois poder galopar. Eis aqui, ó gajo, uma bela justa do campeonato lusitano:

 

Evora,F - Santos,L

Campeonato de Portugal, Evora, 1995

1.Cf3 c5 2.c4 Cf6 3.Cc3 d5 4.cxd5 Cxd5 5.e4 Cb4 6.d4? [Esta variante é uma das mais complexas do xadrez atual. Basta ver o que fortes GMs jogaram recentemente: 6.Bb5+ C8c6 7.a3 Cd3+ 8.Re2 Cf4+ 9.Rf1 Ce6 10.d3 g6 11.h4 Bg7 Piket,J-Leko,P, SuperGM, Dortmund GER 2000] 6...cxd4 7.Cxd4?? [Embora as brancas ficassem com posição inferior, deveriam ter jogado 7.Da4+ C4c6 8.Ce2 e5 9.Cxe5 Bb4+ 10.Bd2 Bxd2+ 11.Rxd2 0–0] 7...Dxd4! Esse é o detalhe. As pretas ganham a peça porque sua dama não pode ser capturada: 8.Dxd4 Cc2+ 9.Rd1 Cxd4. As brancas abandonaram. 0–1

E como essa foi a sétima miniatura apresentada, vamos ficando por aqui. Na próxima coluna, continuaremos com nosso tema!